sábado, 11 de abril de 2009

Há algum tempo eu estava a cismar,sentado em uma pequena saliência que aflorava no caminho de uma senda aqui em El Chaltén.Noite alta,indiscritivelmente estrelada e fria.Com espantosa admiração e profundo respeito admirava o firmamento estrelado e pensava lá atrás,nos idos da minha meninice,ou quem sabe um pouco mais a frente,lá pelos anos 60,na soberba que ainda nos dominava,percebendo o Homem como a criatura eleita por Deus.Crença mais ou quase que exclusivamente em razão da nossa ignorância,ou talvez mais especificamente da minha própria.E ela era decorrente de um método e de um conteúdo educacional hermético,sem espaço para explorações e fantasias.Só os " iniciados" professores sabiam. Se eu levantasse a mão e perguntasse por exemplo "Porque?" a resposta,quase sempre seria "porque é assim".Nossos limites eram ensinados assim:Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados".Do Universo ainda não se tinha a noção que temos atualmente,pois o Sputinik,com Gagarin no leme, ainda não tinha subido ao céus.Nosso céu era só o que podíamos ver espichando o pescoço para cima ou consultando o atlas da Cia. Melhoramentos,o melhor,mas ainda assim bem acanhadinho.Com tudo isso, ou melhor só com isso,a nossa ignorância nos conduzia a soberba e como se diz hoje,nas rodas de uma cervejinha "nóis é nois mano".Só o planeta Terra é habitado(será que sabendo da dimensão que nos cerca podemos continuar acreditando nisso?) e o Homem é o "rei" da Criação,com Charles Darwin ainda rejeitado por muitos.Ainda não era possível entender quão pequenos somos neste planeta e muito menos ainda diante da imensidão,incompreensível, da nossa Galáxia e da proximidade de suas fronteiras,só para ficar bem por perto.
Digo tudo isso porque só podemos entender a nossa diminuta estatura de criatura viajando.Mas não em qualquer viagem.Não será indo de "mala e cuia" e cartões de crédito para Nova Iorque,Atenas,Cancun,Montreal,Porto,ou a qualquer outro lugar que poderemos compreender nossa pequenez e dessa forma ainda achar que somos a "cereja do bolo da Criação". E isso decorre simplesmente porque,seja lá onde estivermos,estaremos absurdamente envolvidos com os limites do relógio,medidazinha que criamos para podermos entender e administrar o "nosso" tempo e não nos perdermos,além de que estaremos prestando atenção somente a tudo o que cotidianamente nos viciamos a olhar e que nos ocupa:dinheiro,roupas de grife,lugares da moda "bombando",comida "fast ou slow", sucessos literários,musicais,cinematográficos e esportivos,carros possantes e lindos, assim como com os ícones do momento,que ditam comportamento.
Desse modo quem consegue se perceber,quem consegue ter a noção da nossa real dimensão e importância nesse Universo sem fim,pois eu nunca soube que em algum lugar,em qualquer direção ou distância percorrida,foi encontrada uma tabuleta informando "Termina aqui o Universo".
Tudo isso para poder dizer que só poderemos,na minha modesta opinião,realmente conhecer a nossa ampla pequenez neste mundo de duas maneiras.
Uma seria través da medição de nossa inteligência e de nossas forças com o vasto oceano,lugar onde somos testados pela solidão,pelo medo,pela natureza e pela sua imensidão,em uma viagem em solitário ao redor do mundo.Apenas só,no cavado das ondas abissais,lançados daqui para ali por ventos tempestuosos compreenderíamos que somos parte,importante é verdade,mas parcela pequena diante de outras forças,jamais domadas.Todos os grandes navegadores,particularmente os marinheiros solitários, sentiram e entenderam isso.
A outra seria realizarmos uma viagem do "microcosmo ao macrocosmo".Saindo da menor partícula conhecida da matéria.Partir,por exemplo, do interior de uma pequenina folha caída em nosso jardim,onde circulam em velocidades incríveis as partículas âtomicas,onde existem vastos espaços entre elas,numa réplica notável do que ocorre no macrocosmo e nos dirigir para fora de nossa esfera rumo às bordas da nossa Galáxia e dela sair e continuar a prosseguir "zilhões" de quilómetros para qualquer lado e depois retornar.
Penso que somente assim poderíamos compreender a nossa diminuta estatura e importância que nos atribuímos. dentro da Obra Divina.
Nesse êxtase estático e reverente,esquecido do frio, acompanhava as órbitas de astros,asteróides e satélites,riscando o manto negro,iluminado por incontáveis diamantes de luz.Desejei estar no alto do FitzRoy para ficar mais pertinho do céu.De Deus eu já estava.
Abraços de um "pé de poeira".

Nenhum comentário: