
Lúcio Aneu Sêneca,filósofo e político,nasceu em Córdoba, Espanha,em data geralmente apontada entre 4 e 1 a.C.Em 65 a.C. suicidou-se,coagido por Nero.Os textos a seguir reproduzidos da obra "Sêneca,Sobre a Providência Divina e Sobre a Firmeza do Sábio" (*) "...não se apoia exclusivamente no estoicismo,corrente filosófica muito em voga no Império Romano nos primeiros séculos da era cristã,mas também,com certeza,nas lições de sua vida gloriosa e atribulada,...".Um dos trechos que mais aprecio nesta obra de grande valor filosófico e prático,mormente nos dias atuais em face das complexidades da vida moderna e do sistema econômico por nós escolhido para orientar as nossas ações de poder,consumo e prazer, é o que a seguir transcrevo da obra ao final mencionada.
"5.5 Também estas inspiradas palavras de Demétrio,homem da maior valentia,me lembro de ter ouvido:Esta é a única coisa de que posso me queixar a vosso respeito,ó deuses imortais:não fizestes vossa vontade conhecida antes por mim,pois antes eu teria chegado a situação em que,tendo sido convocado,agora me encontro.Quereis tomar os meus filhos?Eu os criei para vós.Quereis alguma parte do meu corpo?Tomai:não prometo grande coisa,rapidamente o deixarei por inteiro.Quereis minha vida?Por que vou impedir que recebais o que destes?Por minha vontade levareis o que pedirdes.De que me queixo então?É que eu teria preferido oferecer a entregar.Que necessidade houve de arrebatar?Vós pudestes receber.Mas nem sequer agora estareis arrebatando,porque nada se tira de quem não está segurando."
"5.6Não sou forçado a nada,não sofro nada contra a vontade,e não sou servil a deus mas sim aquiescente,tanto mais que sei que tudo é determinado e se passa segundo uma lei fixa e de valor eterno"
Considero este trecho um dos mais belos e significativos da obra referenciada.Bem compreendido e refletido nos oferece uma força enorme para navegar pelos mares da vida,onde os desafios do cotidiano desafiam a nossa inteligência,força de vontade e coragem.Quem dentre os humanos do ocidente não tem medo de perder? A vida,os filhos,os companheiros de jornada,o emprego,os bens,os investimentos,a saúde,enfim tudo o que arduamente foi recebido ou conquistado.
Chegamos a este mundo nús e desprovidos de qualquer coisa.Os pais nos são dados,os irmãos e demais familiares também.Amigos também nos são oferecidos.Qualquer bem desde tenra idade nos é dado.Depois passamos a conquistá-los mediante a troca de nossos esforços,mas, salvo melhor juízo,através das oportunidades que nos são oferecidas pela vida.
Como percebemos nada é nosso trazido originalmente na nossa bagagem.É aqui que aprendemos a dizer "meu" para tudo,literalmente tudo,nada escapa desse pronome possessivo.E ele é a raiz de todo o nosso desconforto perante a vida e causa de todo,senão a maior porção, do nosso estresse,doença moderna que parece a quase todos cometer.
Será que se nos orientássemos pelos ensinamentos do ilustre Filósofo romano, passaríamos a vida menos incomodados por tantos medos a assombrar nossas vidas.
Perder o que, se nada temos de nosso? A propriedade que ora usufruirmos amanhã será de outro.Não a adquirimos de um proprietário anterior? E o mesmo vale para todo o resto.O que temos hoje amanhã será de outro.
Quem pode garantir que no segundo seguinte a um bocejo alguém estará vivo? Quem pode garantir que estará no futuro.
Ao refletir sobre isto tudo acredito que não estou sendo pessimista,mas procurando entender realmente a transitoriedade da vida,os desígnios da providência divina, adquirindo a firmeza que pode nos conceder esse entendimento,caminhando pela vida sem temer perder,pois que de nosso nada temos.Nosso só as experiências da vida.
Desde que passei a refletir sobre estes corajosos e realistas ensinamentos do célebre espanhol,passei a viver mais tranqüilo e com menos medos a carregar.Abraços de um "pé de poeira".
(*)Obra com tradução,introdução e notas de Ricardo da Cunha Lima,Ed.Nova Alexandria,ISBN 85-86075-57-4.
Nenhum comentário:
Postar um comentário